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♦ Diagnóstico dos Problemas de Aprendizagem
Diagnóstico dos Problemas de Aprendizagem
Laura Marisa C. Calejon

O diagnóstico dos problemas de aprendizagem deve considerar duas questões relevantes. Em primeiro lugar os conceitos de problemas de aprendizagem, dificuldades de aprendizagem, distúrbios de aprendizagem, assim como a trajetória assumida por estes conceitos no contexto da psicologia no século XX e no cenário brasileiro. Em segundo lugar as concepções de diagnóstico e a diferença que deve ser estabelecida entre o diagnóstico classificatório e o diagnóstico explicativo.

Para compreender a primeira questão proposta é necessário analisar as definições de “distúrbio de aprendizagem”, “problemas de aprendizagem”, “dificuldades de aprendizagem”, compreendendo a diversidade de significados que estes conceitos assumem, assim como a dimensão biologizante mais evidente em um do que em outro.

A diversidade de textos existentes na literatura e relacionados com esta temática torna a tarefa de análise mais complexa.

È importante observar que na década de 1980, no Brasil, a expressão “distúrbio de aprendizagem” com a implicação biológica era muito freqüente no contexto brasileiro. Críticos como Moysés e Collares apontam até hoje para este aspecto, assim como Patto foi uma crítica desta leitura do insucesso escolar, elaborando a categoria “fracasso escolar”. A crítica de Patto estava dirigida aos psicólogos escolares e a miopia do olhar destes psicólogos que colocavam apenas no sujeito a razão do não aprender.

Outro aspecto a ser considerado na análise das definições são os fundamentos epistemológicos das teorias que permitem as definições. Não podemos esquecer a presença marcante no contexto brasileiro da psicanálise e da proposta de Piaget, principalmente até a década de 1980.

Destes argumentos resulta a conclusão de que, apesar do termo utilizado, a situação de “não aprender” ou “de desempenho insatisfatório na escola” ou de “queixa escolar” ou de “fracasso escolar”, configura uma situação complexa, multideterminada, produzida pela interação de várias condições e dimensões que devem ser consideradas no esforço de compreender e auxiliar o sujeito.

Neste esforço de compreensão é importante resgatar o conceito de desenvolvimento humano e as relações que existem entre aprendizagem e desenvolvimento. Assumimos a perspectiva histórico-cultural que defende o ensino e a aprendizagem como promotores do desenvolvimento. O desenvolvimento por sua vez é um processo complexo, não linear, marcado por avanços e recuos, um processo dialético que ocorre em momentos diferentes nas diferentes funções ou dimensões do funcionamento psicológico. A fonte destes processos está nas condições sociais e culturais em que o sujeito está constituído, mas sua ocorrência se dá no sujeito pelo acumulo de vivências e experiências. Nesta perspectiva, no ato educativo e pedagógico existe uma participação ativa tanto do sujeito que aprende quanto daquele que ensina.

A aprendizagem não é um processo que começa com o ingresso na escola. È um processo histórico que tem seu início no grupo familiar. Esse grupo ou esta família pode ser potenciadora ou não potenciadora deste desenvolvimento.

A segunda questão a ser considerada refere-se à concepção de diagnóstico que o psicopedagogo assume. Um diagnóstico pode ser classificatório e muitas vezes estigmatizante. No campo da educação um rótulo que classifique o sujeito tem efeitos mais nocivos que benéficos.

Por esta razão, assumimos a perspectiva do diagnóstico explicativo proposta por Arias Beaton, caracterizando o diagnóstico como um processo de construção de conhecimento do desenvolvimento real ou atual do sujeito, assim como do seu desenvolvimento potencial, do contexto e história do seu desenvolvimento e aprendizagem, m processo construído pela capacidade do psicopedagogo de refletir e sistematizar dados oriundos de diferentes fontes e a partir de diferentes instrumentos.

O diagnóstico explicativo deve permitir a compreensão da situação vivida pela criança ou pelo sujeito que não aprende ou apresenta um rendimento escolar insuficiente, de modo a organizar intervenções que permitam retomar o curso do desenvolvimento e orientar pessoas responsáveis pelo sujeito e que participam de sua trajetória evolutiva e educativa.

O processo tem início com uma queixa ou uma indicação de algo “que não vai bem” ou que preocupa. Este primeiro passo pode ser dado por uma mãe ou um responsável pelo sujeito ou pelo próprio sujeito que procura ajuda. Pode ser dado também por um professor, um coordenador em uma unidade escolar que procura auxilia do especialista. O lugar do especialista não é o de detentor do saber ou o substituto daquele que procura ajuda. O especialista é um parceiro na construção de um conhecimento compartilhado, conhecimento que deve ser capaz de produzir mudanças e auxiliar as pessoas envolvidas no processo.

Desta forma, a entrevista ou entrevistas a serem realizadas com a mãe ou os pais para reconstruir a dinâmica histórica do desenvolvimento é uma etapa importante do processo.

Outra etapa relevante são as entrevistas e informações fornecidas pelo professor, coordenador e outros educadores que possam fornecer dados sobre o desempenho escolar e a dinâmica histórica do processo de aprendizagem e de escolarização.
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